segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Moto Perpétuo


BRASIL | 40 ANOS ATRÁS | PERPÉTUO ENQUANTO DUROU

Tudo começa com o jovem Guilherme Arantes, nascido em 1953, no bairro da Bela Vista. Seu pai, vendo que tinha gosto pela música, tratou de colocar o garoto para umas voltas com o primo de segundo grau, Solano Ribeiro, que hoje não é nada menos do que uma referência em música popular brasileira. Isso pelos anos de 1971, quando Guilherme já havia (com muito custo, porque era indisciplinado na escola) ingressado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Guilherme Arantes foi conferir uma produção de Solano Ribeiro que rolava no Teatro Ruth Escobar, no morro dos Ingleses, a peça de teatro “Plug” com o grupo O Bando e a participação de Carlos Lee. Ali ele travou contato com um ambiente que era pura contracultura, a vanguarda do teatro nacional, acompanhado do que mais descolado rolava em música pela capital paulistana. Nesta peça especificamente, ele conheceu o futuro amigo e parceiro Diógenes Burani, baterista e compositor. Segundo suas próprias palavras: “Eu era fascinado pelo Bando, seus arranjos com duas baterias poderosíssimas, os riffs Led Zeppelinescos, era uma banda de muito respeito e virtuosismo psicodélico. Eu nunca tinha visto de perto nada parecido . As bandas de baile do passado ficariam a partir dali, sendo fichinha, brincadeira de amadores. Diógenes, numa tarde fria e cinzenta, me deu uma carona inesquecível na garupa de sua moto, uma Zundapp barulhenta… Rebelde e brilhante, Diógenes se tornou um ídolo. Era como que um irmão mais velho, pra mim – o irmão que eu não tive.“

Engatada essa amizade e minado o relacionamento interno n’O Bando, Guilherme Arantes e Diógenes Burani ficaram ainda mais próximos e, se espelhando no baterista, Guilherme Arantes passa a dedicar horas a fio na prática do piano. Algum tempo depois, Diógenes Burani convida Guilherme para tocar com Jorge Mautner no Teatro 13 de Maio, convite que foi topado absolutamente na hora, pois Mautner já era artista da admiração do jovem pianista. Passado esse show e mais alguns, com todo o nervosismo de novato espantado na cara cheia de espinhas, a criação de uma banda própria a partir daquela amizade era eminente. E assim foi feito. Diógenes apreciou as composições de Guilherme, com ideias arrojadas e fortemente influenciadas pelo som do Clube da Esquina.

Já no segundo ano da faculdade e com várias bombas nas costas, Guilherme Arantes havia conhecido um brilhante violonista (que inclusive já era professor de violão na época) chamado Claudio Lucci, que já era ligado em som progressivo. Quando pintou a ideia da criação da banda, seu nome veio facilmente a integrar a conversa de quem chamar para montar o time. Dos contatos que Diógenes Burani possuía, surgiram as indicações do baixista Gerson Tatini e do guitarrista Egydio Conde.

Guilherme conta sobre seus futuros companheiros de banda: “Ele (Diógenes) logo lembrou de dois músicos que poderiam estar com a gente, o Gerson Tatini, um baixista monumental que morava na Aclimação, que curtia Gentle Giant, Yes, bem esquisitão… que tinha uma imensa aranha caranguejeira como xodó, dentro de um aquário de vidro, no quarto… E o Egydio Conde, um guitarrista também excepcional, com estilo bem Gilmour, bem Clapton, bem Beck, um luxo de pessoa, culto, elegante…Fiquei amigão de Egydio , também, a gente dava muita risada de tudo, identificação total…“

Estava germinada a banda. O batismo, como sempre, foi traumático e duramente discutido. Mas vingou a ideia de Guilherme Arantes – Moto Perpétuo. Tentando aproveitar o rastro do cometa “Secos & Molhados”, a garotada foi buscar o empresário Moracy do Val. Foram recebidos e o secretário do empresário, Juracy Almeida, se tornou instantaneamente amigo da banda. Moracy do Val estava desesperado, porque naquele 1974, o Secos & Molhados era um campo de batalha e a dissolução do grupo estava por acontecer. Não conseguiram muito o que pretendiam, mas saíram com perspectivas animadoras. Rodando de ônibus, montaram seu quartel general no Brás, em uma casa alugada do sogro do irmão de Claudio Lucci. Segundo Guilherme Arantes, Claudio Lucci tinha um papel fundamental na unidade do grupo, com seu espírito de lideranças e suas muitas amizades. De um amigo seu é que se materializaria o arranjo visual da capa do disco do Moto Perpétuo.


Os ensaios corriam, combinando a guitarra sóbria e estilosa de Egydio Conde, as musculosas linhas de baixo de Gerson Tatini (claramente influenciadas por Chris Squire), a baquetada potente de Diógenes Burani, o refinamento do violão (as vezes se arriscava também no violoncello) de Claudio Lucci e o lirismo de Guilherme Arantes. Naquela casa, o entrosamento e a pretensão nasceram e cresceram. Todos eles buscavam freneticamente incrementar sua técnica, musicalidade e o aparato de instrumentos e equipamentos. Egydio Conde, por exemplo, estava desembalando sua recém adquirida Fender Stratocaster quando que, por uma brincadeira de mal gosto de Guilherme, caiu um martelo que arranhava aquela pintura novinha… a coisa quase descambou pra pancadaria.

O repertório ficou pronto, e o empresário Moracy do Val conseguiu uma vaga para os garotos na Continental, oferecendo a oportunidade de gravarmos com o produtor Pena Smith nos estúdios da Sonima. Porém a condição não era das mais favoráveis. Apenas 5 dias estariam disponíveis para o grupo e o estúdio só tinha 8 canais. Gerson Tatini encrespou, porque seriam necessários no mínimo 24 canais para uma gravação de alto padrão, como as bandas estrangeiras faziam. Muitas brigas rolaram entre Gerson e Guilherme por conta disso. Gerson dizia pra Guilherme “Você não escuta disco?” E Guilherme num ímpeto, respondia aquela radicalidade toda com “Não ouço disco porque nasci pra fazer disco, saca?” Com a palavra, Guilherme Arantes: “Brigamos muito, mas eu decidi topar, e a gravação foi uma maratona de gambiarras sem fim… Baixo somado com bumbo num canal, batera toda mixada em outros 2, guitarras e teclados em mais dois, e assim por diante…O resultado, claro, apesar das qualidades do velho Pena, ficou muito aquém do que esperávamos, e do que a banda merecia…Mas foi o que pudemos ter… Disco feito, a capa foi elaborada pelo Marcos Campacci, o “Campa” de Sapopemba, mostrando em uma colagem as nossas fotos altivas de jovens com idealismo e muito orgulho desde o primeiro instante…” Depois de gravado, a expectativa para o lançamento. O lançamento foi adiado por conta de que a Continental estava preparando o lançamento da lendária banda A Barca do Sol, no Rio. A banda bateu o pé com a questão e acabaram se queimando com Moracy do Val e outras pessoas do círculo, já que a Barca do Sol era uma banda bem relacionada com críticos e outros influentes daquele microcosmo. Mas o disco saiu ainda em 1974.

A crítica não foi bondosa com o Moto Perpétuo, mas os narizes da turma do Brás continuaram empinados, buscando o horizonte. No dia 11 de novembro de 1974, a estréia oficial do grupo acontecia no Teatro 13 de Maio, com todo a parafernália montada e patrocinada por Moracy do Val. Para os presentes, a vontade e a garra na música eram claras e alvas. Dentro dos poucos espaços e no circuito existente, o Moto Perpétuo fez tudo o que era possível. Guilherme Arantes achava que o grupo devia aparecer em todas as janelas possíveis, dos teatros underground até o programa de Raul Gil. Infelizmente, essa ideia não condizia com a postura “maldita” adotada pelo restante de seus companheiros. A barra foi pesando pra Guilherme quando tocaram no Festival de Águas Claras, em Iacanga, em janeiro de 1975. O grupo foi recebido aos gritos de “Toca Rock!”.

No fim de 1975, Guilherme bateu suas asas e levou com ele todo o combustível que moveria “perpetuamente” aquele moto adiante. Batendo na porta da Som Livre, o destino lhe deu melhores sorrisos e hoje estamos cá nós falando de sua “pré-história”.

Ainda que gravado em 8 canais, o resultado sonoro do disco é bom para o padrão brasileiro da época, com a cozinha bem presente e voz equilibrada. De seu conteúdo, letras lindíssimas, passagens musicais esculpidas com capricho e muito refinamento. Alguns movimentos mais claros ao rock, como a fantástica “Conto Contigo“, ou a tortuosa introdução progressista de “Os Jardins”. Baladas com sabor mais pop como “Duas” ou “Verde Vertente” aparecem e equilibram sofisticação com apelo. Mais instrospectivas são “Turba”, a acústica “Seguir Viagem” e a tocante “Matinal“, em que fica exposta toda a verve poética de Guilherme Arantes:

Pra arrematar, Guilherme Arantes, reconhece: “A História nos julgará. Foi uma banda perfeita e ponto final. Fomos uma das melhores bandas de todo o movimento progressivo da época. Outra bandaça era o Vímana, do Rio, com Lobão, Lulu , Ritchie e Luis Paulo Simas. Outras de igual quilate eram o genial O Terço, com Sergio Hinds, Magrão, Flavio Venturini, óbvio, o Som Nosso de Cada Dia, com Manito, Pedrão Baldanza, Dino Vicente, e Pedrinho “negão” Batera, os divinos Mutantes.. . Que geração, a nossa! Que orgulho nos dá, hoje, vermos do que fomos capazes de fazer, com tão parcos recursos, na nossa mocidade! Como a gente tocava, caramba ! Até hoje, não tem pra ninguém. Quem viveu, viveu. Quem estava lá, viu. A comparação que faço, hoje em dia, ao contemplar esse período, é com a Era dos Descobrimentos, em precárias caravelas de madeira! É igualzinho!“

Por | Ronaldo Rodrigues

1974 | MOTO PERPÉTUO

01 | Mal O Sol
02 | Conto Contigo
03 | Verde Vertente
04 | Matinal
05 | Três E Eu
06 | Não Reclamo Da Chuva
07 | Duas
08 | Sobe
09 | Seguir Viagem
10 | Os Jardins
11 | Turba

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