quarta-feira, 25 de março de 2015

Supertramp | Crime Of The Century


Terceiro álbum do Supertramp levou-os a uma condição de protagonistas do rock progressivo

Por | Bruno Chair

Nos primeiros anos da década de 70, o rock progressivo vivia o seu período de auge. Citando apenas bandas inglesas, temos o Pink Floyd em 1973 lançando The Dark Side of the Moon, o Yes em 1972 com Close to the Edge, o Genesis em 1973 com Selling England by the Pound. Temos outros álbuns dessas bandas, que fizeram tanto sucesso quanto estes. Temos outras bandas da cena inglesa como Emerson, Lake and Palmer, Gentle Giant, King Crimson. Temos uma cena de rock progressivo na Holanda, na Alemanha, na Itália, até no Brasil.

O Supertramp, inserido neste contexto do rock progressivo inglês, demorou um pouco mais para emplacar. Os dois primeiros álbuns da banda, Supertramp (1970) e Indelibly Stamped (1971) embora apresentem algumas músicas bonitas, como “Surely” e “Rosie Had Everything Planned”, não alcançou uma coesão musical, e por conta dessa falta de um estilo específico acabou não emplacando. A impressão que fica é que está faltando algo a mais, para encaixar aquilo que já parecia ser muito bom.

Acontece que esse início de dois álbuns um tanto complicado do Supertramp repercutiu financeiramente: Stanley Miesagaes, holandês que patrocinava talentos como Rick Davies, decidiu cair fora e retirar toda a sua grana. O resultado foi que Rick Davies e Roger Hodgson, integrantes remanescentes da banda, ficaram com uma dívida milionária para saldar com a gravadora A&M, com quem possuíam contrato. Após servirem até como banda de apoio para Chuck Berry, decidiram retomar o projeto de um novo álbum, para garantir o pagamento das despesas e, quem sabe, respirar um pouco – tanto financeiramente quanto musicalmente.

Com o intento de gravar o novo álbum, Davies e Hodgson começaram a busca por novos integrantes. Assim, foram incorporados ao Supertramp Dougie Thompson (baixo), Bob C. Benberg (bateria) e John Anthony Helliwell (saxofone, clarinete). O Supertramp ressurgia então, após dois anos, para tentar novamente alcançar sucesso, como algumas bandas conterrâneas. Essa formação, por sinal, seguiu junta por muitos e muitos anos, tendo inclusive Helliwell um papel central na banda: além de tocar sax e clarinete, fazia backing vocals e era o mestre de cerimônias oficial da banda.

Davies e Hodgson, ainda à frente da banda, escreveram todas as canções de Crime of the Century. Interessante ressaltar como estes dois cantores complementam-se, tanto no que tange a voz quanto as referências musicais. Rick Davies vem de uma família de trabalhadores, mais simples; Roger Hodgson é proveniente de uma família mais “erudita” (muitas aspas aqui, por favor). Enquanto Rick Davies conhecia muito jazz e blues, Roger Hodgson apreciava o pop e a psicodelia. Ou seja, as referências dos dois de mundo e de música era bem distinta. Ademais, enquanto Davies é barítono, Hodgson é soprano. Essa diferença vocal é bastante perceptível, e os dois integrantes souberam utilizar essa distinção com propriedade, genialidade.


Pois bem. A demo chegou a gravadora, e como o trabalho parecia muito bom, a A&M decidiu dar um tempo mais longo para que a banda produzisse o álbum. Ken Scott foi escalado para produzir Crime of the Century, e vinha de um trabalho de produção excelente com David Bowie e o Ziggy Stardust, álbum de 1972. Paul Wakefield ficou responsável pela capa do álbum, e criou uma das artes mais sensacionais já produzidas, com aquelas mãos empunhando uma barra de ferro: preso no espaço, um grande contrassenso que um crime do século acaba ocasionando.

O resultado de Crime of the Century foi extremamente positivo, tanto em qualidade musical quanto em resultado financeiro e reconhecimento do Supertramp como banda do cenário progressivo. O álbum emplacou canções nas paradas inglesas (“Dreamer”) e americanas (“Bloody Well Right”), teve uma vendagem razoável para a época e recebeu críticas muito elogiosas, tanto do cenário rock, pop e do rock progressivo. É um álbum que apresenta um Supertramp como banda de rock progressivo, porque possui músicas com influências de jazz, blues, rock, psicodelia e experimentalismo.

Dos álbuns mais conhecidos do Supertramp, é o mais complexo. A incrementação dos metais deu um toque todo especial à banda, algo que a diferenciou das demais da época. A dicotomia de vozes Davies/Hodgson também surpreeende. O uso de teclado/sintetizador versus piano, idem. A gravação das linhas de baixo de Dougie Thomson neste álbum ficaram excelentes. Como outra marca deste disco, está o tom mais sombrio das músicas, se compararmos ao produzido posteriormente pela banda. Em Crisis? What Crisis? ainda há este elemento sombrio e contestatório, que vai perdendo espaço para um ambiente mais festivo e pop. Não desmerecendo a mudança da banda, é óbvio.

Este álbum passa no teste do tempo? Embora o rock progressivo seja um estilo bastante datado, muitos dos álbuns produzidos na década tornaram-se imortais. Os álbuns do Pink Floyd, Yes e Genesis citados no primeiro parágrafo da resenha são alguns dos exemplos. Pode-se dizer que este é o álbum imortal do Supertramp, pela sua qualidade e como registro do espírito do tempo. Por estes motivos, as mãos presas pelo espaço ainda podem acenar para os ouvintes da boa música, solicitando dele ouvidos e olhos atentos.

1974 | CRIME OF THE CENTURY

01. School
02. Bloody Well Right
03. Hide In Your Shell
04. Asylum
05. Dreamer
06. Rudy
07. If Everyone Was Listening
08. Crime of the Century

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