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segunda-feira, 23 de março de 2020

Marvin Gaye


GRANDES TRILHAS DO CINEMA: TROUBLE MAN DE MARVIN GAYE

Nem sempre o sucesso de um filme é o mesmo de sua trilha sonora. Não são poucos os casos de produções que tiveram uma história discreta, mas suas trilhas originais tornaram-se consagradas, lembradas por décadas, transformadas em referência no meio musical e cinematográfico. Talvez Trouble Man também se enquadre nessa estatística: um filme de ação setentista que tinha ninguém mais, ninguém menos, que Marvin Gaye como compositor de sua trilha sonora. O album foi um best-seller desde o seu lançamento, um clássico que atravessou décadas e hoje, mais de 40 anos depois do seu lançamento, merece a nossa atenção.

Início da década de 70. Os Estados Unidos e o mundo vivenciavam o crescente florescer dos movimentos sociais nas ruas e nos meios de comunicação. Do trabalho a produção artística, toda forma de expressão carregava consigo o poder das ideias, seja de uma forma branda e singela ou em silhuetas fortes e bem definidas. É nesse contexto histórico que Marvin Gaye, logo após o lançamento de um dos seus mais aclamados discos – What’s Going On, se dedicava à produção da trilha sonora de Trouble Man, um marco para o seu trabalho e a música em geral.

Trouble Man foi lançado em novembro de 1972, com direção de Ivan Dixon e estrelado por Robert Hooks como Mr. T, aquele que “carrega duas armas, uma para acabar com a confusão e outra para fazer confusão” – como nos é apresentado no trailer. Uma espécie de detetive particular que é respeitado por onde passa, abusando da elegância e eficiência para resolver os casos que acaba se envolvendo. O filme é um dos clássicos de um movimento do cinema norte-americano chamado Blaxploitation, cujas películas eram protagonizadas e produzidas por negros, muitas vezes contando com grandes compositores e arranjadores da soul music nas suas trilhas sonoras, dentre eles Barry White, Isaac Hayes e Marvin Gaye. Esse movimento revelou diversos astros e emplacou grandes sucessos na década de 70, tendo como ícones deste período filmes como Shaft e Superfly, além de influenciar diretamente obras mais recentes, como Jackie Brown, de Quentin Tarantino, e a série Luke Cage.

Marvin Gaye iniciou sua carreira como artista solo em 1961 na famosa Motown Records, tornando-se uma referência dentro do soul e R&B ao longo das décadas de 60, 70 e 80. Um dos seus maiores sucessos, o album Whats Going On de 1971, é constantemente inserido nas listas do maiores discos de todos os tempos pelas principais revistas musicais do mundo e pode ser considerado revolucionário por abordar temas historicamente relevantes a seu momento, tratando com letras introspectivas temas como a pobreza, o abuso de drogas e a Guerra do Vietnã, sempre em consonância com as lutas sociais da época. Esse clima influenciaria Gaye na composição de Trouble Man, lançado no ano seguinte.

A trilha sonora é recheada de ótimas faixas, mas a sua marca definitivamente está na música que recebe o mesmo nome da película. Trouble Man é impactante desde os primeiros rudimentos de bateria, nos aquecendo rapidamente para todo o resto que está por vir. Com vocais simultaneamente rápidos e melódicos, a voz de Marvin é milimetricamente intercalada, nota a nota, com o som dos metais e das teclas, havendo espaço para Gaye brilhar com seus timbres únicos, mas também para os instrumentistas reivindicarem o seu espaço. E mais: definitivamente é uma música feita para o filme. Carrega todo o clima da produção, de forma dinâmica, elegante e rica em elementos. Essa música, por si só, já valeria uma análise em 500 páginas.

De forma geral, a maior parte do album conta com música instrumentais que, apesar de não contar todo o tempo com a fantástica capacidade vocal de Marvin Gaye ao seu lado, nos fazem viajar no clima do filme, entre o noir, o nostálgico e a elegância. Destaco também o modo como os sintetizadores foram explorados ao longo do disco, dando um toque único para determinadas faixas, como em Deep In It, em um período onde os moduladores ganhavam cada vez mais espaço desde o icônico album Bitches Brew de Miles Davis em 1970. E se acabei de dizer que nem sempre os vocais de Gaye estão presentes nas trilhas, não se deixe enganar, quando eles surgem roubam logo as atenções e você irá parar o que está fazendo para tentar entender como poucas palavras conseguem carregar tanto sentimento.


O fantástico trabalho de composição rendeu resultados: o album esteve entre os primeiros da lista da Billboard e foi muito bem recebido pelos críticos, rendendo ótimas resenhas e avaliações. A própria canção Trouble Man sempre estará entre as grandes canções da carreira de Marvin Gaye, sendo eternamente lembrada junto com toda a sua fantástica obra. E em 2013 uma edição especial do album foi lançada em formato duplo, comemorando os 40 anos de lançamento do disco: 40th Anniversary Expanded Edition.

Ainda tem dúvidas que Trouble Man é um dos grandes albums do cinema e tem influenciado gerações desde o seu lançamento? E se eu dissesse que tem uma referência a este disco em toda parte, até em filmes de super-herói? Pois é, parece loucura, mas em Capitão América 2 temos uma referência a obra de Marvin Gaye durante a interação entre Steve Rogers e Sam Wilson, mas isso eu deixo para vocês encontrarem por aí. Essa é uma das milhares de referências dessa trilha na cultura pop, só demonstrando o quão influente ela consegue ser até hoje.

"If you are looking for trouble… watch out! ‘Cause trouble is here. Trouble Man!"

Texto | Gael Mota

1972 | TROUBLE MAN
(O Terrível Mister T)
Motion Picture Soundtrack


1972 | ORIGINAL ALBUM

01. Main Theme from Trouble Man (2)
02. "T" Plays It Cool
03. Poor Abbey Walsh
04. The Break In (Police Shoot Big)
05. Cleo's Apartment
06. Trouble Man
07. Theme from Trouble Man
08. "T" Stands for Trouble
09. Main Theme from Trouble Man (1)
10. Life Is a Gamble
11. Deep-In-It
12. Don't Mess With Mister "T"
13. There Goes Mister "T"

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2012 | 40th ANNIVERSRY EXPANDED EDITION

CD 1

ORIGINAL ALBUM

01. Main Theme From Trouble Man (2)
02. "T" Plays It Cool
03. Poor Abbey Walsh
04. The Break In (Police Shoot Big)
05. Cleo's Apartment
06. Trouble Man
07. Theme From Trouble Man
08. "T" Stands For Trouble
09. Main Theme From Trouble Man (1)
10. Life Is A Gamble
11. Deep-In-It
12. Don't Mess With Mister "T"
13. There Goes Mister "T"

THE "T" SESSIONS

14. Main Theme From Trouble Man (2) (Alternate Take With Strings)
15. "T" Plays It Cool (Unedited)
16. Poor Abbey Walsh, Part 2 (Take 1)
17. Poor Abbey Walsh, Part 2 (Take 2)
18. Trouble Man (Extended Version)
19. Theme From Trouble Man (Vocal Version)
20. "T" Stands For Trouble (Unedited Vocal Version)
21. "T" Stands For Trouble (Alternate Version)
22. Main Theme From Trouble Man (Vocal Version)

CD 2

TROUBLE MAN ORIGINAL FILM SCORE

01. Trouble Man
02. Poor Hall
03. "T" Plays It Cool
04. Cadillac Interlude-Cleo's Apartment
05. Man Tied Up-Jimmy's West-Conversation With Cleo
06. Crap Game (A.K.A. The Break In)-Getting Rid Of Body-Talking To Angel
07. Outside Police Station
08. Bowling Alley-Parking Lot
09. Stick Up
10. Cleaners-Cleo
11. Closing Jimmy's
12. Police Break In
13. "T" Cleans Up-Police Station
14. Packing Up-Jimmy Gets Worked-Saying Goodbye-"T" Breaks In-Movie Theater
15. Car Ride-Looking For Pete
16. Parking Garage-Elevator
17. Penthouse
18. Getting Pete
19. My Name Is "T"-End Credits

FILM BAND BONUS

20. "T" At The Cross

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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Marvin Gaye


Stevie Wonder e Smokey Robinson eram muito mais paqueradores, mas são raras as vezes em que igualaram Marvin Gaye em interpretação e sensualidade. Trocando em miúdos, Let's Get it On é o primeiro disco da Motown a exalar sexo.

Na biografia Divided Soul, o americano David Ritz revela que o cantor apanhara tanto do pai - um pastor chegado em se vestir de mulher logo após o culto, que, adulto, desenvolveu problemas como timidez com as garotas e ejaculação precoce. Talvez por isso, o cantor tenha se casado com a maternal Anna Gordy, irmã do dono da Motown, muitos anos mais velha que ele.

Porém, logo depois do sucesso de What's Going On (1971), o casamento havia terminado. Gaye afastou-se dos estúdios da Motown para trabalhar com músicos de Jazz.

Muito do refinamento sonoro de Let's Get It On foi produzido nesses encontros. Mas a verdadeira inspiração apareceu tempos quando, no dia 13 de março de 1973, Marvin Gaye se deparou com Janis Hunter, uma garota de dezessete anos. Ali, ele superou qualquer problema que tivesse com o sexo oposto.

Let's Get it On, a princípio, nasceu como um disco dedicado a Jesus Cristo.

Gaye era fanático por religião, desses capazes de passar horas discutindo sobre Jesus. Por isso é que em boa parte das letras do álbum, ele fala de como é bom estar unido a alguém e da necessidade de se entender. Mas bastou Janis entrar na sua vida que o foco do disco mudou.

Hoje, se você presentear alguém com Let's Get it On corre o risco de ser processado por assédio sexual. Um fato triste na carreira do disco é que ele tornou a vida do cantor insustentável do ponto de vista amoroso. Um cara que tinha problemas com as mulheres passou a ser encarado como o sedutor irresistível, aquele que ganhava todas as garotas da parada. E, claro, Gaye queria era ser reconhecido apenas por valor artístico.

Do riff de guitarra da faixa-título à promessa contida em "Just Keep You Satisfied" ("apenas para te satisfazer", outra religiosa que foi distorcida na interpretação de Gaye), Let's Get It On é uma obra-prima e de múltiplas utilidades.

Os românticos podem usá-lo como trilha para acasalamento - os sussurros e o sax de motel de "You Sure to Ball" são altamente recomendáveis. Os músicos irão se deliciar com as linhas de baixo criadas por Wilton Felder. Já os mais religiosos poderão sonhar com a ideia de que Marvin Gaye foi o melhor pregador que a igreja jamais teve. E todos podem se deliciar com um tempo em que a música negra era muito mais do que um bando de gente berrando "yo!" e andando de calças arriadas.

Texto |
Sérgio Martins
Discoteca básica da Bizz | Edição 194, Outubro de 2005

1973 | LET'S GET IT ON

01. Let's Get It On
02. Please Stay (Once You Go Away)
03. If I Should Die Tonight
04. Keep Gettin' It On
05. Come Get To This
06. Distant Lover
07. You Sure Love To Ball
08. Just To Keep You Satisfied

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domingo, 1 de dezembro de 2013

Marvin Gaye


Marvin Gaye era a gema da Motown: carismático, boa-pinta e excelente cantor e compositor (ele é quem criou a genial e contagiante Dancing In The Street, clássico da Martha Reeves And The Vandellas, por exemplo). Não era a toa que ele era chamado de simeplesmente o Príncipe do Soul. No famoso selo de Detroit, ele emplacou dezenas de sucessos memoráveis pelos anos 60 afora, como I Heard It Trough The Grapevine , Hitch Hike, Pride And Joy, Your Precious Love, How Sweet It Is (To Be Loved by You), Ain't That Peculiar.

O auge foi o duo que ele criou com a bela Tammi Terrell: Ain’t No Mountain High se tornaria um dos maiores êxitos de odos os tempos pela Motown. A parceria, no entasnto, terminou de forma patética e trágica. Diagnosticada com tumor no cérebro, Tammi morreria meses depois, com apenas 24 anos. Seu passamento significou o fim do episódio 1 da carreira de Gaye. Arrasado, ele ficou mais de dois anos longe do disco e dos palcos. Ao mesmo tempo, decidiu repensar a vida. Não queria mais cantar músicas românticas. Para ele, o mundo estava de cabeça para baixo, e ele precisava fazer alguma coisa. Escreveu um punhado de canções, que retratavam o seu ponto-de-vista perante problemas na sociedade, como abuso de drogas, racismo, violência policial e a Guerra do Vietnã.

Inicialmente, ele queria gravá-las coma colaboração de Al Cleveland e Renaldo Banson, dos Four Tops. Eles sugeriram que Marvin as gravasse ele mesmo. No fim, teria que tomar uma decisão corajosa e defender com unhas e dentes What's Going On. Não era um álbum de canções pop, mas sim um disco com letras de protesto. Barry Gordy Jr, o todo-poderoso manda-chuva da Motown, não gostou nada da idéia. Achou que era ousadia demais abordar essa temática, ainda mais, num disco da Tamla. Gaye bateu pé: queria gravar What’s Going On, e ponto final. Ambos ficaram num impasse, até que o cantor deu o ultimato ou Gordy, que naturalmente queria um disco na velha fórmula de sucessos da Motown. Ou ele aprovava o projeto ou ele pediria demissão. Gordy, por sua vez, teve que engolir o seu preclaro artista principal. Por mais desastroso que fosse permitir o disco, ele não podia perder Gaye para a concorrência.

Contudo, o que mais chateou o dono da Motown foi o fato de que o disco não tinha, em sua opinião, nenhuma viabilidade comercial e, que diabos, não iria tocar em nenhuma rádio, de jeito nenhum. Todas as músicas eram um ciclo de nove partes, que contam uma história contínua — mais ou menos como no famoso (!) álbum conceitual Watertown, de Frank Sinatra. Nesse caso, por melhor que seja, ele se tornaria o melhor disco do The Voice menos ouvido da história. Gordy achava que se What’s Going On não encalhasse, reria mais por causa de Gaye que das faixas em si.

Para sorte e azar de Gordy, ele se enganou redondamente (não seria a primeira vez: por exemplo, se dependesse do seu aval, Marvin e Tammi jamais teriam gravado a adorável Ain’t No Mountain High) e provou a máxima de que você “não precisa de metereologista para saber qual é a direção do vento” A faixa que dá no me ao álbum, por exemplo, lançda como compacto (contra as ordens de Gordy, novamente) foi o maior sucesso de Marvin desde I Heard It Trough The Grapevine, vendendo quase três milhões de cópias.

1971 WHAT'S GOING ON

01. What's Going On
02. What's Happening Brother
03. Flyin' High (In The Friendly Sky)
04. Save The Children
05. God Is Love
06. Mercy Mercy Me (The Ecology)
07. Right On
08. Wholy Holy
09. Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)

Bônus Tracks:
10. God Is Love (B-side)
11. Sad Tomorrows (B-side)

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