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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Serge Gainsbourg


O INVENTOR DO POP FRANCÊS NA ERA DO ROCK

Serge Gainsbourg é simplesmente o mais importante compositor do pop francês da segunda metade dos anos 50 em diante, ou seja, a chamada era do rock, não contando gigantes pré-rock como Chevalier, Trenet ou Piaf. Talvez não seja inadequado comparar Gainsbourg a Chico Buarque; o gaulês foi melodista igualmente versátil e inspirado, usando todos os ritmos possíveis, e também escreveu letras à altura (em francês e inglês), cheias de jogos de palavras e achados poéticos eivados de lirismo, cinismo e ironia. Gainsbourg também convida comparações com outros grandes compositores como o inglês Noel Coward e os norte-americanos Randy Newman e Tom Lehrer.

É verdade que Gainsbourg veio de um ambiente mais liberal e propício à criatividade que Chico Buarque: a França, ainda por cima Paris, terra do existencialismo, os "filhos de Karl Marx e da Coca-Cola", como diz Godard – ou, para citar agora-me-foge-quem, aquela interpretação mais radical do "carpe diem" latino, não de simplesmente aproveitar cada dia, mas sim vivê-lo como se fosse o único, queimar a vela pelas duas pontas e pelo meio, não confiar no futuro, pois a vida e o amor são apenas camuflagens frágeis e passageiras que escondem o nada, ô dó. Como dizem os existencialistas franceses, Deus não existe, mas em compensação os franceses sim – ou, na frase do próprio Gainsbourg, "o homem criou Deus, o inverso está por ser provado".

Talvez Gainsbourg tenha sido quem melhor aplicou o existencialismo à música pop, tanto em suas letras quanto em sua própria vida. Para começar, os homens franceses são mestres da feiúra charmosa, e Gainsbourg era típico ("a beleza do feio nota-se imediatamente", dizia), inclusive sonoramente, com a voz que se espera de quem fumava cinco maços de cigarros por dia – hábito que manteve até o fim, sem contar bebida, drogas e noitadas, mesmo após sofrer três enfartes e perder dois terços do fígado. Bem que amigos e médicos o aconselharam, mas ele nem quis saber, justificando: "Eu sobrevivo desde que nasci. Minha mãe quis abortar quando engravidou. Em 1942 a polícia nazista tentou nos prender. Minha mãe me salvou com minhas duas irmãs. Depois cresci sob uma boa estrela amarela, a que usei durante a ocupação. O que vivi depois é um presente."

Serge Gainsbourg ganhou o presente da vida em 2 de março de 1928, batizado Lucien Ginzburg e filho de judeus fugidos da Rússia. Seu pai era pianista e transmitiu este dom ao filho, que logo arrumou empregos e bicos como transcritor de partituras e pianista de jazz. Um dia o rapaz percebeu que poderia ganhar um pouco mais como compositor, e resolveu adotar um pseudônimo – não para esconder sua ascendência judia, mas sim porque "Lucien Ginzburg é nome de barbeiro de bairro". A princípio assinou-se Julien Crux, mas após três anos escolheu o prenome Serge, forma francesa de "Sergei", em honra a seus antepassados russos, e passou a grafar seu sobrenome como Gainsbourg, gozando seus professores que não conseguiam escrever Ginzburg."...

Logo Gainsbourg chamou a atenção do meio musical. Descoberto pelo grande empresário e produtor franco-búlgaro Jacques Canetti (também descobridor de Jacques Brel, Michael Legrand e muitos outros) assinou com a Philips (onde gravaria por toda a vida – quem diria ser esta a mesma Universal Music de hoje?) em 1958 (pois é, ele já tinha trinta anos). Em 31 anos Gainsbourg gravou 27 LPs (incluindo um em dupla com seu primeiro parceiro, o compositor e arranjador Alain Goraguer, e a atriz/cantora Juliette Greco, outro com Brigitte Bardot e, claro, um terceiro com Jane Birkin), além de ter músicas ou versões gravadas por meio mundo.

As pérolas de Gainsbourg gravadas por outros incluem "Poupée De Cire, Poupée De Son", lançada por France Gali (e que muitos de vocês devem ter conhecido com Wanderléa, "Boneca De Cera, Boneca De Pano"), "Comment Te Dire Adieu" (versão de "It Hurts To Say Goodbye" do norte-americano Jack Gold) e "L’Anamour" (ambas sucessos com La Hardy), "69 L Ánnée Erotique" (lançada pela atriz e cantora inglesa Jane Birkin), "La Javanaise" (lançada por Juliette Greco e regravada por Rita Lee nos anos 90) e "Harley-Davidson", sucesso de Brigitte Bardot, regravado pelo Shocking Blue (sim, o grupo holandês) e a inspiração para o início de "Metamorfose Ambulante" de Tio Raul – além de grande ausência numa recente coletânea de músicas dedicadas à mítica motocicleta.

Embora não fosse estritamente roqueiro, o versátil Gainsbourg era muito bom de rock, muitas vezes parodiando e esculhambando o gênero – que tal, em plena era do twist, ouvir um disco chamado "Réquiem Pour Un Twister"? E "Oh Oh Cheri", rockabilly da dupla Jil & Jan, sucesso de Françoise, foi parodiado por Gainsbourg como "Oh Oh Sheriff", gravado num LP todo em francês da inglesa Petula Clark. Sempre bem-humorado, Gainsbourg oferece opções para todos os gostos, do melhor ao pior, da escatologia à irreverência e humor negro, como em "En Relisant Ta Lettre", que comenta os erros de ortografia do último bilhete da amante suicida ("Ao reler tua carta/noto que tua ortografia é como tu/‘É tu que eu amo’/tem um "m" só [...] ‘eu te suplico’/faltou o pingo no "i"/‘sou escrava’/não tem crase/‘das aparências/isso é ridículo’/O "i" é maiúsculo..." À primeira vista podendo soar machista, Gainsbourg gozava até o machismo, como em "Les Femmes, Ça Fait Pédé" ("As Mulheres Nos Dão Vontade De Virar Bichas").

Aliás, Gainsbourg parodiava não só o rock, mas tudo, inclusive ritmos jamaicanos ("Couleur Café", "Pauvre Lola") e música erudita: "Jane B.", cantada por La Birkin, é explicitamente inspirada no Prelúdio Número 4 de Chopin, e o "Mercado Persa" de Kethelby foi transformado em (fiquem sentados) "Oh My Lady Heroine". E isso não é nada perto de seu arranjo reggae para o hino nacional francês em 1979.

Mantendo pique e inspiração até o fim, Gainsbourg, logo antes de morrer, em 1990, ainda compôs dois discos inteiros para Jane Birkin (Amours Des Faintes) e Vanessa Paradis, a Carla Perez francesa, intitulado Variations Sur Le Même T’Aime. Notaram o trocadilho do título? Gainsbourg, já comentamos, compunha muito bem em francês e também em inglês, sendo grande fã de aliterações e jogos de palavras em geral. Outro bom exemplo é sua letra para "Comment The Dire Adieu", cheia de trocadilhos com o fonema "ex".

Citamos a versão reggae de Gainsbourg para "A Marselhesa", carro-chefe de seu LP 'Aux Armes Et Cetera', de 1979. Franceses mais patriotas, incluindo veteranos da segunda guerra mundial, protestaram em massa. Emérito provocador, Gainsbourg conseguiu chocar até seus conterrâneos franceses, para quem "merde" e "putain" não são palavrões. Para Gainsbourg, escandalizar o Vaticano (como ele fez com "Je T’Aime... Moi Non Plus") era moleza. Ele gozou até a si mesmo e sua herança judaica num LP inteiro, 'Rock Around The Bunker!' Sem falar em "Les Sucettes", que France Gall gravou sem perceber a, ahn, sutileza da letra: "Aninha adora pirulitos/Pirulitos de aniz [...] quando o suco chega à garganta de Aninha/ela vai ao céu [...] e quando ela sente que debaixo da língua/só ficou o palito/ela corre de volta à loja". Acredite se quiser: Gali só se deu conta da lambuzeira quando o disco se tornou grande sucesso. (Fula da vida, ela nunca mais falou com Gainsbourg. Mas, também, quem mandou não prestar atenção?) Menos sutil foi a reação bastante espontânea de Gainsbourg ao se deparar com a gritadeira Whitney Houston num programa de TV: "I want to fuck you!".

Mas Gainsbourg, sátiro e gozador, foi também grande pessoa. Casado com Jane Birkin durante doze anos, continuou seu amigo e parceiro musical mesmo após o fim do romance. Ambos tiveram uma filha, Charlotte, também atriz e cantora (e que gravou com o pai um dueto cujo título diz tudo, "Lemon Incest"). E quatro anos antes de morrer Gainsbourg produziu outro pepê, o garoto Lulu, em parceria com Bambou, jovem modelo francesa de origem chino-alemã; Gainsbourg lhe dedicou uma música cujo início diz "Quando eu sumir, jogue um pouco de urtiga sobre meu túmulo, meu pequeno Lulu."

Enfim, o assunto Serge Gainsbourg é dos mais ricos, assim como sua obra. Bem comentou a feminista Bardot ao morrer o amigo: "Ele me provou que alguns homens podem ser gênios." E toda sua obra está disponível, devidamente reeditada pela Philips francesa numa caixa de onze CDs, 'De Gainsbourg A Gainsbarre', bem como todas suas letras, reunidas em 'Dernières Nouvelles Des Étoiles', livro organizado pelo escritor e gainsbourgólogo Franck Lhomeau e lançado pela editora parisiense Plon Pocket em 1994. Parafraseando o próprio Gainsbourg, ao rever sua obra, há muito poucos erros a apontar...


1971 | HISTORIE DE MELODY NELSON

01 | Melody
02 | Ballade de Melody Nelson
03 | Valse de Melody
04 | Ah! Melody
05 | L’Hôtel Particulier
06 | En Melody
07 | Cargo Culte

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Serge Gainsbourg

Filme sobre a vida de Serge Gainsbourg resgata o estilo de Brigitte Bardot e Jane Birkin

Por: Maíra Liguori

Ele era franzino, orelhudo, fumante inveterado e se autointitulava “o homem da cabeça de repolho”. Ainda assim, o cantor e compositor Serge Gainsbourg foi capaz de conquistar algumas das mulheres mais belas de sua época e protagonizou, junto com elas, a liberação sexual francesa dos anos 1970. Sua história boêmia, seus romances polêmicos e suas canções irônicas estão no filme “Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres”, do diretor Joann Sfar.

No centro da narrativa estão a atriz francesa Brigitte Bardot, com quem Gainsbourg viveu um tórrido romance em 1967, e a atriz inglesa Jane Birkin, sua principal musa e esposa por mais de 13 anos. Dois ícones de estilo, cujas contribuições à moda, à beleza e ao comportamento feminino permanecem até hoje. “Estamos falando de exemplos de mulheres que transcendem épocas e gerações. São ícones que surgem de tempos em tempos e vão diretamente ao encontro das aspirações femininas de suas épocas”, diz a consultora de moda e jornalista Erika Palomino, em entrevista ao UOL Estilo.

“Je t’aime....moi non plus”

Na primeira parte do filme, Brigitte ganha vida na pele da atriz Laetitia Casta. Vivendo romance escandaloso e proibido com o compositor, ela participa de uma das fases mais criativas de sua carreira e compõe, ao seu lado, algumas canções, entre elas “Je t'aime... moi non plus”. A música, de conteúdo considerado erótico – a letra é como um diálogo entre dois amantes -, foi lançada alguns anos depois e chegou a ser condenada pelo Vaticano e proibida nos Estados Unidos, na Itália, na Espanha e no Reino Unido.

Além de linda e ousada, Brigitte era também uma artista múltipla. Era dançarina de balé clássico desde pequena e foi modelo precoce (estampou uma capa da revista Elle com apenas 16 anos), atuou como atriz em mais de 40 filmes e lançou, entre os anos 1960 e 1970, 14 discos como intérprete e compositora. Seu corpo curvilíneo impactou os padrões estéticos da época ao evidenciar decotes ousados, saias curtas e roupas muito justas. “Bardot tinha uma sensualidade decodificável, com um forte impacto no imaginário masculino”, afirma Erika.

Brigitte Bardot popularizou o biquíni em célebres aparições em Búzios (RJ) - ela teve um namorado brasileiro - e em Saint-Tropez, na França, e provocou reações moralistas ao se casar com um minivestido com pernas à mostra. “Bardot é uma das mulheres mais sensuais que já existiram. É a representação perfeita de ‘E Deus criou a mulher’”, afirma a jornalista e apresentadora Lorena Calábria, referindo-se ao filme de 1956 estrelado pela francesa. “Suas curvas e sua boca são ícones máximos da feminilidade de todos os tempos”, conta. O lado musa de Brigitte serviu de inspiração ainda para outros artistas, como Bob Dylan, Andy Warhol, John Lennon e Stevie Wonder.

Cabelos ondulados, lábios carnudos e olhos marcados transformaram Bardot em “sex kitten”, frágil e provocante ao mesmo tempo. Para a maquiadora Vanessa Rozan, do Liceu de Maquiagem, “Brigitte Bardot é uma das principais referências de beleza de todos os tempos, ao lado de Farrah Fawcet”. “Os olhos bem pintados conferem um ar misterioso e fazem contraponto com a boca quase nude, que junto com os dentes separados davam um ar infantil. Era um jogo perfeito entre a mulher fatal e a menina ingênua”, diz ela. Cílios postiços, sombra esfumada e o penteado colmeia (com volume no topo da cabeça), sua marca registrada, são hoje clássicos da beleza.

“I love you, me neither”

Após alguns meses do fim do romance com Bardot, Jane Birkin surgiu na vida do cantor e com ele viveu um casamento turbulento de mais de 13 anos, que resultou ainda em uma filha: Charlotte Gainsbourg. Interpretada por Lucy Gordon, Jane aparece no filme como uma inglesa frágil, chorando às margens do rio Sena, mas que logo se apropria de uma postura icônica para se equiparar à imagem de Gainsbourg.

JANE BIRKIN E A HERMÈS

O estilo de Jane Birkin se concretizou como produto com a grife francesa Hermès, que criou uma bolsa com seu nome em 1980. A peça, de couro e com design elegante, se tornou um clássico da marca e pode custar até R$ 200 mil. Hoje, a Birkin, bolsa, é um dos principais símbolos de status e costuma ser vista nas mãos de celebridades como Victoria Beckham, Katie Holmes e Kim Kardashian.

Em entrevista ao jornal “New York Times”, Jane contou como a peça foi criada: “Estava em um vôo de Paris a Londres, quando a sacola de plástico que carregava se rompeu e espalhou todas as minhas coisas pelo chão. Naquele momento, pensei em voz alta como adoraria que a Hermès fizesse uma bolsa na qual pudesse guardar todas aquelas coisas. Coincidentemente, o homem que se sentava ao meu lado era Jean-Louis Dumas, o coordenador de estilo da marca. Eles já haviam lançado a bolsa Kelly, em homenagem a Grace Kelly, e então começaram a desenhar uma para mim. Fiz algumas visitas ao ateliê, discutimos os desenhos, dei sugestões, pedi bolsos maiores e ela ganhou esta forma que tem hoje”.

“Birkin tinha uma beleza sofisticada, nada vulgar. Soube explorar seu tipo físico em função do que os homens projetavam sobre seu corpo, sem jamais perder a elegância”, acredita Erika.

Se Brigitte Bardot ajudou a compor “Je t’aime.... moi non plus”, foi na voz de Jane Birkin que a música ganhou força, transformou-se em hit e chegou a ocupar as primeiras posições das listas de canções mais tocadas da Europa. Suas fotos estampam as primeiras páginas dos jornais, Jane é convidada a protagonizar com o marido editoriais de moda e se consagra como ícone de estilo - anos mais tarde seu nome vira sinônimo de uma das bolsas mais cobiçadas, a Birkin, da Hermès.


Diferente de Brigitte, sua beleza tinha um apelo natural, com mais charme e menos exuberância. “Birkin veio para mostrar que a sensualidade independe de curvas. Era longilínea, suave, linda sem pretensão. Parecia uma fada”, disse Lorena Calábria. “Fazendo um paralelo com uma personalidade atual, acho que ela se compararia a Kate Moss, que é dona de uma beleza selvagem, sem artifícios”, completou. Erika Palomino concorda com a comparação: “Kate Moss é, como Jane Birkin, uma mulher verdadeira, fiel ao seu estilo e às suas convicções. Ela já não é mais uma garotinha e ainda assim continua interessante. Consegue usar peças que podem ser consideradas até de gosto duvidoso, mas que ganham outra leitura com sua força e estilo”.

A jovem Jane Birkin tinha um estilo natural e era linda ao seu jeito, fosse descalça ou apenas com uma camiseta branca. “Ela era clean, simples, sexy quase sem querer. Maquiagem nada, um cabelo meio despenteado, com aquela franjona hit dos 1960, uma verdadeira lolita”, disse a maquiadora Vanessa Rozan. “Adoro a Charlotte Gainsbourg, que além de carregar os mesmos genes, herdou o estilo da mãe e o aprimorou”, completa.

SERGE GAINSBOURG
Les Annees Psychedeliques 1966-1971


01 | Requiem Pour Un Con
02 | Requiem Pour Un Con Bonus Beats
03 | Je Navais Qu Un Seul Mot a Lui Dire
04 | Sous Le Soleil Exactement
05 | Chanson Du Forcat
06 | Pas Mal Pas Mal Du Tout
07 | New Delire
08 | Bonnie and Clyde
09 | Premiere Blessure
10 | Danger
11 | Danger Bonus Beats
12 | Generique Pop 2
13 | Photographes Et Religieuses
14 | Boomerang
15 | Psychastenie
16 | Cadavres En Serie
17 | La Horse
18 | La Horse Bonus Beats
19 | L'Alouette
20 | Breakdown Suite
21 | No No Yes Yes
22 | En Melody

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